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sexta-feira, 16 de novembro de 2012

A Chinela Turca - um conto de Machado de Assis (parte 2)


- Agradeço-lhe as suas boas intenções, disse Lopo Alves, e aceito o obséquio que me
promete; antes dele, porém, desejo outro. Sei que é inteligente e lido; há de me dizer
francamente o que pensa deste trabalho. Não lhe peço elogios, exijo franqueza e franqueza
rude. Se achar que não é bom, diga-o sem rebuço.
Duarte procurou desviar aquele cálice de amargura; mas era difícil pedi-lo, e impossível
alcançá-lo. Consultou melancolicamente o relógio, que marcava nove horas e cinqüenta e
cinco minutos, enquanto o major folheava paternalmente as cento e oitenta folhas do
manuscrito.
- Isto vai depressa, disse Lopo Alves; eu sei o que são rapazes e o que são bailes. Descanse
que ainda hoje dançará duas ou três valsas com ela, se a tem, ou com elas. Não acha melhor
irmos para o seu gabinete?
Era indiferente, para o bacharel, o lugar do suplício; acedeu ao desejo do hóspede. Este,
com a liberdade que lhe davam as relações, disse ao moleque que não deixasse entrar
ninguém. O algoz não queria testemunhas. A porta do gabinete fechou-se; Lopo Alves
tomou lugar ao pé da mesa, tendo em frente o bacharel, que mergulhou o corpo e o
desespero numa vasta poltrona de marroquim, resoluto a não dizer palavra para ir mais
depressa ao termo.
O drama dividia-se em sete quadros. Esta indicação produziu um calafrio no ouvinte. Nada
havia de novo naquelas cento e oitenta páginas, senão a letra do autor. O mais eram os
lances, os caracteres, as ficelles, e até o estilo dos mais acabados tipos do romantismo
desgrenhado. Lopo Alves cuidava pôr por obra uma invenção, quando não fazia mais do
que alinhavar as suas reminiscências. Noutra ocasião, a obra seria um bom passatempo.
Havia logo no primeiro quadro, espécie de prólogo, uma criança roubada à família, um
envenenamento, dois embuçados, a ponta de um punhal e quantidade de adjetivos não
menos afiados que o punhal. No segundo quadro dava-se conta da morte de um dos
embuçados, que devia ressuscitar no terceiro, para ser preso no quinto, e matar o tirano do
sétimo. Além da morte aparente do embuçado, havia no segundo quadro o rapto da menina,
já então moça de dezessete anos, um monólogo que parecia durar igual prazo, e o roubo de
um testamento.

(continuação 3)

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