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sexta-feira, 16 de novembro de 2012

A Chinela Turca - um conto de Machado de Assis (parte 3)


Eram quase onze horas quando acabou a leitura deste segundo quadro. Duarte mal podia
conter a cólera; era já impossível ir ao Rio Comprido. Não é fora de propósito conjeturar
que, se o major expirasse naquele momento, Duarte agradecia a morte como um benefício
da Providência. Os sentimentos do bacharel não faziam crer tamanha ferocidade; mas a
leitura de um mau livro é capaz de produzir fenômenos ainda mais espantosos. Acresce
que, enquanto aos olhos carnais do bacharel aparecia em toda a sua espessura a grenha de
Lopo Alves, fugiam-lhe ao espírito os fios de ouro que ornavam a formosa cabeça de
Cecília; via-a com os olhos azuis, a tez branca e rosada, o gesto delicado e gracioso,
dominando todas as demais damas que deviam estar no salão da viúva Meneses. Via aquilo,
e ouvia mentalmente a música, a palestra, o soar dos passos, e o ruge-ruge das sedas;
enquanto a voz rouquenha e sensaborona de Lopo Alves ia desfiando os quadros e os
diálogos, com a impassibilidade de uma grande convicção.
Voava o tempo, e o ouvinte já não sabia a conta dos quadros. Meia-noite soara desde muito;
o baile estava perdido. De repente, viu Duarte que o major enrolava outra vez o manuscrito,
erguia-se, empertigava-se, cravava nele uns olhos odientos e maus, e saía arrebatadamente
do gabinete. Duarte quis chamá-lo, mas o pasmo tolhera-lhe a voz e os movimentos.
Quando pôde dominar-se, ouviu o bater do tacão rijo e colérico do dramaturgo na pedra da
calçada.
Foi à janela; nada viu nem ouviu; autor e drama tinham desaparecido.
- Por que não fêz ele isso a mais tempo? disse o rapaz suspirando.
O suspiro mal teve tempo de abrir as asas e sair pela janela fora, em demanda do Rio
Comprido, quando o moleque do bacharel veio anunciar-lhe a visita de um homem baixo e
gordo.
- A esta hora? exclamou Duarte.
- A esta hora, repetiu o homem baixo e gordo, entrando na sala. A esta ou a qualquer hora,
pode a polícia entrar na casa do cidadão, uma vez que se trata de um delito grave.
- Um delito!
- Creio que me conhece...
- Não tenho essa honra.
- Sou empregado na polícia.
- Mas que tenho eu com o senhor? de que delito se trata?
- Pouca coisa: um furto. O senhor é acusado de ter subtraído uma chinela turca.
Aparentemente não vale nada ou vale pouco a tal chinela. Mas há chinela e chinela. Tudo
depende das circunstâncias.
O homem disse isto com um riso sarcástico, e cravando no bacharel uns olhos de
inquisidor. Duarte não sabia sequer da existência do objeto roubado. Concluiu que havia
equívoco de nome, e não se zangou com a injúria irrogada à sua pessoa, e de algum modo à
sua classe, atribuindo-se-lhe a ratonice. Isto mesmo disse ao empregado da polícia,
acrescentando que não era motivo, em todo caso, para incomodá-lo a semelhante hora.
- Há de perdoar-me, disse o representante da autoridade. A chinela de que se trata vale
algumas dezenas de contos de réis; é ornada de finíssimos diamantes, que a tornam
singularmente preciosa. Não é turca só pela forma, mas também pela origem. A dona, que é
uma de nossas patrícias mais viajeiras, esteve, há cerca de três anos no Egito, onde a
comprou a um judeu. A história, que este aluno de Moisés referiu acerca daquele produto
da indústria muçulmana, é verdadeiramente miraculosa, e, no meu sentir, perfeitamente
mentirosa. Mas não vem ao caso dizê-la. O que importa saber é que ela foi roubada e que a
polícia tem denúncia contra o senhor.
Neste ponto do discurso, chegara-se o homem à janela; Duarte suspeitou que fosse um
doido ou um ladrão. Não teve tempo de examinar a suspeita, porque dentro de alguns
segundos, viu entrar cinco homens armados, que lhe lançaram as mãos e o levaram, escada
abaixo, sem embargo dos gritos que soltava e dos movimentos desesperados que fazia. Na
rua havia um carro, onde o meteram à força. Já lá estava o homem baixo e gordo, e mais
um sujeito alto e magro, que o receberam e fizeram sentar no fundo do carro. Ouviu-se
estalar o chicote do cocheiro e o carro partiu à desfilada.
- Ah! ah! disse o homem gordo. Com que então pensava que podia impunemente furtar
chinelas turcas, namorar moças louras, casar talvez com elas... e rir ainda por cima do
gênero humano.
Ouvindo aquela alusão à dama dos seus pensamentos, Duarte teve um calafrio. Tratava-se,
ao que parecia, de algum desforço de rival suplantado. Ou a alusão seria casual e estranha à
aventura? Duarte perdeu-se num cipoal de conjeturas, enquanto o carro ia sempre andando
a todo galope. No fim de algum tempo, arriscou uma observação.
- Quaisquer que sejam os meus crimes, suponho que a polícia...
- Nós não somos da polícia, interrompeu friamente o homem magro.
- Ah!
- Este cavalheiro e eu fazemos um par. Ele, o senhor e eu fazemos um terno. Ora, terno não
é melhor que par; não é, não pode ser. Um casal é o ideal. Provavelmente não me entendeu?
- Não, senhor.
- Há de entender logo mais.
Duarte resignou-se à espera, enfronhou-se no silêncio, derreou o corpo, e deixou correr o
carro e a aventura. Obra de cinco minutos depois estacavam os cavalos.
- Chegamos, disse o homem gordo.
Dizendo isto, tirou um lenço da algibeira e ofereceu-o ao bacharel para que tapasse os
olhos. Duarte recusou, mas o homem magro observou-lhe que era mais prudente obedecer
que resistir. Não resistiu o bacharel; atou o lenço e apeou-se. Ouviu, daí a pouco, ranger
uma porta; duas pessoas, - provavelmente as mesmas que o acompanharam no carro, -
seguraram-lhe as mãos e o conduziram por uma infinidade de corredores e escadas.
Andando, ouvia o bacharel algumas vozes desconhecidas, palavras soltas, frases truncadas.
Afinal pararam; disseram-lhe que se sentasse e destapasse os olhos. Duarte obedeceu; mas
ao desvendar-se, não viu ninguém mais.
Era uma sala vasta, assaz iluminada, trastejada com elegância e opulência. Era talvez
sobreposse a variedade dos adornos; contudo, a pessoa que os escolhera devia ter gosto
apurado.

(continuação 4)

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