Livraria Saraiva

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quarta-feira, 10 de agosto de 2011

A carteira, um conto de Machado de Assis


A carteira, um conto de Machado de Assis  
A carteira, um conto de Machado de Assis.

O maior escritor brasileiro de todos os tempos coloca as reflexões morais de um sujeito comum nesse curto e instrutivo conto. Em A Carteira Machado de Assim  apresenta uma estória onde um sujeito acha uma carteira na rua, com timidez, e até com vergonha ele apanha a carteira, dizendo para si mesmo, se alguém passar por aqui direi que peguei para devolver para o dono. Ao abrir a carteira não encontra nada que pudesse identificar-lhe o dono, mas resta, em seu fundo, uma considerável soma de dinheiro. Enquanto caminha pelas ruas dos Rio de Janeiro do século XIX, ele pensa em todas as coisas que poderia fazer com o dinheiro, inclusive pagar-lhe uma considerável dívida que lhe oprimia já há muito tempo. Por uma volta do destino ele encontra é levado a encontrar um sujeito que lhe diz ter perdido a carteira exatamente no lugar onde ele encontrou aquela e é levado a saber que a carteira pertence a essa pessoa. Torturado pela descoberta ele se vê no dilema moral de devolver ou não a carteira ao sujeito que já a dá por perdida irremediavelmente. 

Livros de Machado de Assis à venda:

MACHADO DE ASSIS – CONTOS, coletânea bem representativa de contos do mestre. Inclui o seu antológico “O Alienista”.

TRINTA CRONICAS IRREVERENTES – Machado também era um fabular cronista, aqui o leitor poderá compartilhar da sagacidade e ironia de um Machado de Assis critico social.

SELEÇAO DE CONTOS – Coletânea de contos menos conhecidos de Machado, mas nem por isso menos geniais. 

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Destino - Poesia

Destino - Poesia  
Reunião dos grandes poetas da geração de 70.
Destino-Poesia é um livro que reúne o que a poesia brasileira produziu de melhor na assim chamada geração de 70. Dentre os grandes nomes da turma ai reunida está Paulo Leminski, Waly Salomão, Cacaso (Antônio Carlos de Brito), Ana C. (Ana Cristina Cesar) e Torquato Neto. Essa importante reunião foi lançada pela primeira vez nos anos 80 sob os cuidados de critico literário Italo Moriconi e sob o selo da José Olympio Editores. Felizmente o texto encontrou re-publicação recente e pode ser encontrado nas livrarias (veja abaixo). Está é provavelmente a melhor e mais representativa reunião desse poetas, tão diferentes em seus estilos, abordagens e temas. Porém, sempre com um ponto de convergência entre todos eles: o clima de euforia, esperança, desespero e as vezes vertigem que dominava o pais no processo social que levou ao fim de 21 anos da Ditadura Militar. Altamente recomendado, mesmo porque, infelizmente esse grandes poetas com suas vidas turbulentas e obras audazes encontraram pouca ressonância e exposição num país ainda dominado pelas sobras da repressão política, moral e artística. Pior do que isso, suas obras permaneceram não publicadas (ou re-publicadas) através do tempo, prolongado o desconhecimento de um circulo maior de leitores das suas vidas e obras fundamentais para a literatura brasileira contemporânea.

Link $$ Livro

DESTINO – POESIA - Organizador: MORICONI, ITALO, Editora: JOSE OLYMPIO.

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Yo también tuve una novia bisexual

Yo también tuve una novia bisexual  
Novo romance do best-seller autor argentine Guillermo Martinez.

Guillermo Martínez é um famoso escritor argentino que fez sucesso mundo afora com duas novelas intensamente baseadas em um enredo de conto policial e matemática. Isso mesmo, conto policial e matemática. A primeira delas Los Crimines de Oxford o enredo gira em torno da resolução de uma criptograma deixado por um assassino em série que atua na milenária universidade inglesa. Ou, também ambientado em Oxford, traduzida por The book of murder para o inglês a trama giram em torno de decifrações matematico-logicas e  solvência de misteriosos crimes. Entretanto, Guillermo Martinez tem em seu currículo uma obra mais vasta que esses dois livros que venderam especialmente bem. Nesse momento ele lança sua nova novela, Yo también tuve una novia bisexual, que segundo entrevista do autor [veja a entrevista: http://blog.eternacadencia.com.ar/?p=14674] é baseada em uma relação amorosa entre um professor universitário argentino e uma estudante americana enquanto esse vai para uma universidade do sul dos Estados Unidos para uma série de palestras.
(Links $$ Books):





Borges y La Matematica – interessantissimo ensaio por Gullierme Martinez sobre a obra de Borge e suas relação com vários dos mais importantes problemas e teoremas da matemática.

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Bufo & Spallanzani um anti-romance policial

Bufo & Spallanzani um anti-romance policial
Romance de Rubem Fonseca que ri do gênero romance policial.

Estava cá lendo esse interessante livro de Rubem Fonseca Bufo & Spallanzani. Logo no começo do livro a uma passagem que me pareceu muito curiosa,

Mas antes quero lhe contar um sonho que tenho tido ultimamente.

“Neste pesadelo Tolstoi me aparece todo vestido de preto, suas longas barbas brancas desalinhadas, dizendo em russo, ‘para escrever Guerra e paz fiz este gesto duzentas mil vezes’; ele estende a mão descarnada e branca como a cera de uma vela, que não sai inteira da comprida manga do paletó, e faz o movimento de molhar uma pena num tinteiro. À minha frente, sobre uma mesa, estão um tinteiro de metal brilhante, uma pena comprida, provavelmente de ganso e uma resma de papel. ‘Anda’, diz Tolstoi,‘agora é a tua vez.’ Perpassa por mim uma sensação aterradora, a certeza de que não conseguirei estender a mão centenas de milhares de vezes para molhar aquela pena no tinteiro e encher as páginas vazias de letras e palavras e frases e parágrafos. Então me vem a convicção de que morrerei antes de realizar esse esforço sobre-humano. Acordo aflito e infeliz e fico sem dormir o resto da noite. Como você sabe, não consigo escrever à mão, como deveriam escrever todos os escritores, segundo o idiota do Nabokov.

O protagonista, narrador da dita “primeira pessoa” é um escritor de sucesso que está a escrever um livro, Bufo & Spallanzani. Enquanto ele se envolve numa trama policialesca em virtude de suas relações com um mulher da alta sociedade que foi encontrada morta. No entanto, sem querer estragar o mistério da leitura, posso dizer que a história se reverte na segunda parte do livro e passamos a conhecer o “passado sujo” do dito escritor.

Como sempre Rubem Fonseca utiliza-se de sua prosa direta e rápida para conferir  certa agilidade na estória, de leitura fluente, o livro parece-me interessante e recomendo.


(Links $$ Livros):

Bufo & Spallanzani – Rubem Fonseca

Feliz Ano Novo – consagrada coletânea de contos.

O Caso Morel – este é o primeiro romance de Rubem Fonseca que lhe trouxe a notoriedade e marcou seu estilo como uma verdadeira forma literária. 

terça-feira, 2 de agosto de 2011

O corvo, Pessoa and Poe

O corvo, Pessoa and  Poe
Pessoa traduziu em 1919 o poema The Raven de Poe, uma verdadeira manifestação afeto.

Lembrando-me aqui eu estava ontem da tradução de The Raven de Fernando Pessoa. É uma tradução muito expressiva, e como não poderia ser?, o mais interessante do que isso é notar a admiração que Pessoa em diversas oportunidades havia expressado pelo grande escritor americano. Além do famoso The Raven Pessoa traduziu também de Poe Annabel Lee e Ulalume. 

O Poema,

O CORVO

Numa meia-noite agreste, quando eu lia, lento e triste,
Vagos, curiosos tomos de ciências ancestrais,
E já quase adormecia, ouvi o que parecia
O som de alguém que batia levemente a meus umbrais.
"Uma visita", eu me disse, "está batendo a meus umbrais.

É só isto, e nada mais."

Ah, que bem disso me lembro! Era no frio dezembro,
E o fogo, morrendo negro, urdia sombras desiguais.
Como eu qu'ria a madrugada, toda a noite aos livros dada
P'ra esquecer (em vão!) a amada, hoje entre hostes celestiais -
Essa cujo nome sabem as hostes celestiais,

Mas sem nome aqui jamais!

Como, a tremer frio e frouxo, cada reposteiro roxo
Me incutia, urdia estranhos terrores nunca antes tais!
Mas, a mim mesmo infundido força, eu ia repetindo,
"É uma visita pedindo entrada aqui em meus umbrais;
Uma visita tardia pede entrada em meus umbrais.

É só isto, e nada mais".

E, mais forte num instante, já nem tardo ou hesitante,
"Senhor", eu disse, "ou senhora, decerto me desculpais;
Mas eu ia adormecendo, quando viestes batendo,
Tão levemente batendo, batendo por meus umbrais,
Que mal ouvi..." E abri largos, franqueando-os, meus umbrais.

Noite, noite e nada mais.

A treva enorme fitando, fiquei perdido receando,
Dúbio e tais sonhos sonhando que os ninguém sonhou iguais.
Mas a noite era infinita, a paz profunda e maldita,
E a única palavra dita foi um nome cheio de ais -
Eu o disse, o nome dela, e o eco disse aos meus ais.

Isso só e nada mais.

Para dentro então volvendo, toda a alma em mim ardendo,
Não tardou que ouvisse novo som batendo mais e mais.
"Por certo", disse eu, "aquela bulha é na minha janela.
Vamos ver o que está nela, e o que são estes sinais."
Meu coração se distraía pesquisando estes sinais.

"É o vento, e nada mais."

Abri então a vidraça, e eis que, com muita negaça,
Entrou grave e nobre um corvo dos bons tempos ancestrais.
Não fez nenhum cumprimento, não parou nem um momento,
Mas com ar solene e lento pousou sobre os meus umbrais,
Num alvo busto de Atena que há por sobre meus umbrais,

Foi, pousou, e nada mais.

E esta ave estranha e escura fez sorrir minha amargura
Com o solene decoro de seus ares rituais.
"Tens o aspecto tosquiado", disse eu, "mas de nobre e ousado,
Ó velho corvo emigrado lá das trevas infernais!
Dize-me qual o teu nome lá nas trevas infernais."

Disse o corvo, "Nunca mais".

Pasmei de ouvir este raro pássaro falar tão claro,
Inda que pouco sentido tivessem palavras tais.
Mas deve ser concedido que ninguém terá havido
Que uma ave tenha tido pousada nos meus umbrais,
Ave ou bicho sobre o busto que há por sobre seus umbrais,

Com o nome "Nunca mais".

Mas o corvo, sobre o busto, nada mais dissera, augusto,
Que essa frase, qual se nela a alma lhe ficasse em ais.
Nem mais voz nem movimento fez, e eu, em meu pensamento
Perdido, murmurei lento, "Amigo, sonhos - mortais
Todos - todos já se foram. Amanhã também te vais".

Disse o corvo, "Nunca mais".

A alma súbito movida por frase tão bem cabida,
"Por certo", disse eu, "são estas vozes usuais,
Aprendeu-as de algum dono, que a desgraça e o abandono
Seguiram até que o entono da alma se quebrou em ais,
E o bordão de desesp'rança de seu canto cheio de ais

Era este "Nunca mais".

Mas, fazendo inda a ave escura sorrir a minha amargura,
Sentei-me defronte dela, do alvo busto e meus umbrais;
E, enterrado na cadeira, pensei de muita maneira
Que qu'ria esta ave agoureia dos maus tempos ancestrais,
Esta ave negra e agoureira dos maus tempos ancestrais,

Com aquele "Nunca mais".

Comigo isto discorrendo, mas nem sílaba dizendo
À ave que na minha alma cravava os olhos fatais,
Isto e mais ia cismando, a cabeça reclinando
No veludo onde a luz punha vagas sobras desiguais,
Naquele veludo onde ela, entre as sobras desiguais,

Reclinar-se-á nunca mais!

Fez-se então o ar mais denso, como cheio dum incenso
Que anjos dessem, cujos leves passos soam musicais.
"Maldito!", a mim disse, "deu-te Deus, por anjos concedeu-te
O esquecimento; valeu-te. Toma-o, esquece, com teus ais,
O nome da que não esqueces, e que faz esses teus ais!"

Disse o corvo, "Nunca mais".

"Profeta", disse eu, "profeta - ou demônio ou ave preta!
Fosse diabo ou tempestade quem te trouxe a meus umbrais,
A este luto e este degredo, a esta noite e este segredo,
A esta casa de ância e medo, dize a esta alma a quem atrais
Se há um bálsamo longínquo para esta alma a quem atrais!

Disse o corvo, "Nunca mais".

"Profeta", disse eu, "profeta - ou demônio ou ave preta!
Pelo Deus ante quem ambos somos fracos e mortais.
Dize a esta alma entristecida se no Éden de outra vida
Verá essa hoje perdida entre hostes celestiais,
Essa cujo nome sabem as hostes celestiais!"

Disse o corvo, "Nunca mais".

"Que esse grito nos aparte, ave ou diabo!", eu disse. "Parte!
Torna á noite e à tempestade! Torna às trevas infernais!
Não deixes pena que ateste a mentira que disseste!
Minha solidão me reste! Tira-te de meus umbrais!
Tira o vulto de meu peito e a sombra de meus umbrais!"

Disse o corvo, "Nunca mais".

E o corvo, na noite infinda, está ainda, está ainda
No alvo busto de Atena que há por sobre os meus umbrais.
Seu olhar tem a medonha cor de um demônio que sonha,
E a luz lança-lhe a tristonha sombra no chão há mais e mais,
Libertar-se-á... nunca mais!


 (Links $$ Livros):
“O Corvo” de Edgar Allan Poe – coletânea de traduções de The Raven junto com as traduções clássicas de Marllamé e Baudelaire – para o francês – tem também essa  Fernando Pessoa) Edição e ensaio de Ivo Barroso.

Um livro interessante de/sobre Fernando Pessoa é esse aqui:

CORRESPONDENCIA COM FERNANDO PESSOAcorrespondência de Fernando pessoa e Mario de Sá-Carneiro. Como é notório a amizade entre esses dois grandes poetas centrais no movimento modernista português foi curta e intenta. A morte prematura de Sá-Carneiro deixou um enorme legado não publicado de sua obra, que graças aos esforços de Fernando Pessoa, que reuniu seus poemas não publicados – que aparecem aqui nessa correspondência – tornou-se a referência essencial que ele é hoje.

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Breton selon le caprice de l’heure

 Breton selon le caprice de l’heure
Trecho de Nadja, o romance sur-biografico de André Breton.

Continuando a discussão sobre criação literária deixo aqui um trecho de Breton sobre o assunto,

Qu'on n'attende pas de moi le compte global de ce qu'il m'a été donné d'éprouver dans ce domaine. Je me bornerai ici à me souvenir sans effort de ce qui, ne répondant à aucune démarche de ma part, m'est quelquefois advenu, de ce qui me donne, m'arrivant par des voies insoupçonnables, la mesure de la grâce et de la disgrâce particulières dont je suis l'objet ; j'en parlerai sans ordre préétabli, et selon le caprice de l'heure qui laisse surnager ce qui surnage.

Grande Breton: sem ordem pré-estabelecida é só se deixar-se ao capricho da hora!
P.S.: Achei, que esse livro do Breton não tinha tradução para o português, mas acabei encontrando essa tradução aqui:

Nadja – trad. Ivo Barroso (grande seu Ivo, ele é poeta e tem um belo livro de ensaios sobre as diversas traduções de “O Corvo” de Edgar Allan Poe – junto com as traduções clássicas de Marllamé e Baudelaire – para o francês – e  Fernando Pessoa)

Nadja – em francês (Essa é a edição que eu tenho, é boa e barata, além disso tem um dossier no final sobre a vida e obra de André Breton).
(links $$  Livro)

A Procura da poesia e a vertigem da poeta.

A Procura da poesia e a vertigem da poeta.
Ou pensamentos ao leu com Drummond, Rilke e Ana C. sobre a criação poética

Certa vez uma internauta passando em meu Blog deixou um comentário onde ele queria saber o que deveria fazer para ser um escritor. Pensei: meu deus! quem sou eu para dar dicas de escritura! Jamais o respondi, nem posso fazê-lo agora, e creio que nunca poderei. Afinal, há alguma técnica para escrever? Refletindo sobre isso pensei primeiramente em duas coisas: Rilke nas Carta a um jovem poeta e Drummond na sua poesia Procura da poesia do livro A rosa do povo (1945). Ai ele fala assim,

Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
Estão paralisados, mas não há desespero,
há calma e frescura na superfície intata.
Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário.
Convive com teus poemas, antes de escrevê-los.

bonito, né? Rilke sempre me sou muito por ai. A conversa dele sobre “imersão” sua apologia a solidão como uma forma de conhecimento-de-si (em oposição a basbaquice charlatã do auto-conhecimento) e a passagem que considero a mais formidável das Cartas,
Quanto mais estivermos silenciosos, pacientes e entregues a nossa mágoa, tanto mais profunda e imperturbável entra a novidade em nós, tanto melhor a conquistamos [...] Deve ser assim. É preciso – e a nossa evolução, aos poucos, há de processar-se nesse sentido – que nada de estranho nos possa advir, senão o que nos pertence desde há muito.
 Drummond e Rilke parece coordenados pela mesma idéia, no silêncio nasce o sentido da palavra como descoberta do mistério em nós mesmos.

Espera que cada um se realize e consume
com o seu poder de palavra
e seu poder de silêncio.

Escreve Drummond no mesmo poema. Agora, um pouco de filosofez pra animar. Que tipo de coisa é esse deixar-se no silêncio? O que é esse silêncio que precede a criação artística? Não há nisso um tipo de sono desperto, um tipo de meditação? Me parece bem por ai a coisa, um tipo de silêncio meditativo. Sei lá, alguma coisa como um Descartes poético. Se com Drummond, é verdade, a meditação parece dirigir-se para a figura concreta da palavra “em estado de dicionário” em Rilke ela tem um ar bem mais emocional um meditar sobre sua mágoa, ele cita várias vezes nas Cartas o “concentrar-se” sobre coisas corriqueiras, sobre a infância, sobre os próprios sentimentos.
Agora, considerando o negócio todo somente pelo lado da produção artística (esquecendo a dimensão humanística/filosófica implícita nisso) não poderíamos considerar esse silêncio meditativo como um exercício criativo? Gostaria de glosar o sentido paradoxal com que se tem falado aqui em meditação. Se você ver, por exemplo, o que acontece na meditação como exercício na Yoga você saberá que as diversas técnicas respiratórias e corporais tem por objetivo alcançar um tipo de “estado” psíquico, suponho, de “esvaziar a mente”. Alguma coisa como um nadificar seu pensamento. A meditação é um tipo de nadificação, um concentração em coisa nenhuma (não sei se as(os) leitoras(os) estão a par da meditação na Yoga, convido-os a praticar) e o problema é que é difícil “esvaziar a mente”. As idéias, pensamentos, sensações parece pular sobre você, entram fortuitamente por todos os lados, pelas coisas mais inesperadas. Em resumo, na meditação da Yoga o lema é “quanto mais nada melhor!”. Aqui parece que é justamente o contrário, o ponto é concentrar-se sob alguma coisa (palavra, sentimento, reminiscência da infância, coisas corriqueiras). Uma coisa que permanece sustentada no ar do silêncio que no tempo da meditação espera-se o seu abrir-se em sentido, em significado. Ana Cristina Cesar dá-nos um exemplo da vertigem que esse fixar o olhar numa coisa dá,

olho muito tempo o corpo de um poema
até perder de vista o que não seja corpo
e sentir separado dentre os dentes
um filete de sangue
nas gengivas

Veja aqui o belo vídeo-poema “Olho-Poema” (direção de Laurita Caldas) baseado nessa poesia de Ana Cristiana Cesar.  [http://www.youtube.com/watch?v=xX8b4j2dkp0&feature=related]
Estranhas relações. Gosto desse verso até perder de vista o que não seja corpo me parece que ai se expressa o tempo da conversão, no silêncio da meditação, do olhar numa coisa a distinção da coisa mesma e da coisa-coisa. A mera coisa (por exemplo os símbolos gráficos do poema no papel) torna-se só coisa (o sentido do poema que os símbolos sustentam). Obviamente isso tem um aspecto trágico na poesia de Ana C.
Voltemos, o que é que é essa “só coisa”? Como chegamos até o ponto de perdemos de vista o que não seja corpo? Drummond no mesmo poema fala-nos,

Chega mais perto e contempla as palavras.
Cada uma
tem mil faces secretas sob a face neutra
e te pergunta, sem interesse pela resposta,
pobre ou terrível, que lhe deres:
Trouxeste a chave?

O poeta vive a angustia desse enamoramento das palavras como só coisas, ele persegue perder de vista o que não seja corpo no poema e lá, no umbral da sua vitória contra a coisa-coisa (ordinária, a vida ordinária das palavras na economia da linguagem comum) as palavras inquiriem-no Trouxeste a chave? No umbral da sua vitória sua expectativa torna-se vertigem e o sentido aparece como silêncio ici esse como um nada, um sem sentido,

Repara:
ermas de melodia e conceito
elas se refugiam na noite, as palavras.
Ainda úmidas e impregnadas de sono,
rolam num rio difícil e se transformam em desprezo.   

No umbral da vitória, o encontro com a multiplicidade infindável de sentidos das palavras, esse ideal (o El Dourado dos poetas) só oferta ao explorador a decepção, um rio difícil um mero transformar-se em desprezo. Eis a contradição da criação poética. Não se pode encontrar aquilo que e procura e não se pode recusar a procurar por isso.

 “Leiiiiaa os Livrooossss”:



(links para opções de compra)

Martha Medeiros “De mulher para mulher....

Martha Medeiros “De mulher para mulher....
Martha Medeiros poems, Brazilian Contemporary Poetry
Martha Medeiros é uma poeta, escritora e cronista brasileira que começou a publicar na segunda metade da década de 80. Seu primeiro livro Strip-Tease apareceu em 1985. De lá pra cá sucederam vários livros. E veio o sucesso com livros de gosto duvidoso. O seu estilo, como poeta que é o que nos interessa, é ágil e direto, conciso e humorístico, por vezes. Martha Medeiros desvela por esquetes rápidos as várias luas de uma mulher normal-classe-média-branca. Ela pinta suas aventuras e desventuras na vida urbana cotidiana. Pessoalmente não considero a poesia de Martha M. totalmente desprovida de interesse, apesar dela ter uma formulação as vezes meio obvia e abundante em rimas pobres apesar disso há certos versos que eu realmente achei bons. Poesia mais ou menos no estilo daquele slogan que todo mundo conhece "De mulher pra mulher ... Marisaaaa". Ou seja, pra dá e vender... No mais ou no menos, não se compra nem 1/100 de Ana C. com uma Martha M. Para ficar com as comparações por aqui, lembremos as grandes poetisas americanas Anne Sexton ou Sylvia Plath como o ápice – formal e de conteúdo – para esse tipo de escritura poética.  A última, inclusive, uma das influencias confessas de Ana Cristina Cesar.

Livros:

Ela tem uma reunião de seus livros de poesias editado pela editora LM&Pocket.


Os livros reunidos são: Strip-Tease (1985), Meia-noite e um Quarto (1987), Persona non Grata (1991), De cara Lavada (1995).

domingo, 31 de julho de 2011

Nem só de Kama-Sutra vive a literatura erótica indiana

Nem só de Kama-Sutra vive a literatura erótica indiana.

Literatura erótica clássica, Amaru.

 Amaru é o nome de um autor indiano do século VIII, não se sabe ao certo sua verdadeira identidade, o que é comum nos textos em sânscritos desse período, em especial aqueles francamente eróticos ou mesmo de conteúdo pornográficos. Há uma coletânea de suas poesias eróticas intitulado Amaruçataka. Composto de aproximadamente cem poesias, conta uma antiga lenda sobre o autor que cada poesia teria sido-lhe inspirada por cada uma das cem diferentes mulheres com quem teve envolvimento amoroso. O texto descreve desde posições sexuais até os sentimentos erógenos e psicológicos dos amantes. Sua orientação geral é voltada para um enaltecimento do prazer sensorial em detrimento do amor romântico, onde os amantes alimentam uma relação afetiva à distância. Geralmente a separação é tida com sofrimento e povoada de delírios cimentos e lembranças, recheadas de atos masturbatórios, dos amantes.
Descreve também relações poligâmicas e intrigas amorosas na “corte” indiana da época. Outra interpretação sobre o surgimento dos versos é de que eles descreveriam a vida amorosa e sexual da sociedade de “corte” indiana daquela época. O texto é de alto teor poético e extremamente elaborado, é considerado pelos estudiosos do sânscrito como uma dos clássicos imortais da língua. Muito popular ao longo do tempo na Índia e até hoje proliferam várias coletâneas dessas poesias.
Acha-se traduções desse texto (os links levarão você para opções de compra desses livros):


LOVE LYRICS (Tradução para o inglês)

 CENTURIA DE AMOR (Tradução para o espanhol)

 LA CENTURIE (tradução para o Francês)

  
Capa da edição espanhola dos poemas de Amaru, “Centúria de Amor”

sábado, 30 de julho de 2011

O homem que sabia javanês de Lima Barreto

O homem que sabia javanês de Lima Barreto

[publicamos aqui um dos mais engraçados e instigantes contos desse grande escritor brasileiro que foi Lima Barreto. Em “O Homem que sabia javanês” – que também foi adaptado para a TV -  ele impõe uma ferrenha critica a vaidade “letristica” do saber especializado.]    

EM UMA confeitaria, certa vez, ao meu amigo Castro, contava eu as partidas que havia pregado às convicções e às respeitabilidades, para poder viver.
Houve mesmo, uma dada ocasião, quando estive em Manaus, em que fui obrigado a esconder a minha qualidade de bacharel, para mais confiança obter dos clientes, que afluíam ao meu escritório de feiticeiro e adivinho. Contava eu isso.
O meu amigo ouvia-me calado, embevecido, gostando daquele meu Gil Blas vivido, até que, em uma pausa da conversa, ao esgotarmos os copos, observou a esmo:
— Tens levado uma vida bem engraçada, Castelo!
— Só assim se pode viver... Isto de uma ocupação única: sair de casa a certas horas, voltar a outras, aborrece, não achas? Não sei como me tenho agüentado lá, no consulado!
— Cansa-se; mas, não é disso que me admiro. O que me admira, é que tenhas corrido tantas aventuras aqui, neste Brasil imbecil e burocrático.
— Qual! Aqui mesmo, meu caro Castro, se podem arranjar belas páginas de vida. Imagina tu que eu já fui professor de javanês!
— Quando? Aqui, depois que voltaste do consulado?
— Não; antes. E, por sinal, fui nomeado cônsul por isso.
— Conta lá como foi. Bebes mais cerveja?
— Bebo.
Mandamos buscar mais outra garrafa, enchemos os copos, e continuei:
— Eu tinha chegado havia pouco ao Rio estava literalmente na miséria. Vivia fugido de casa de pensão em casa de pensão, sem saber onde e como ganhar dinheiro, quando li no Jornal do Comércio o anuncio seguinte:
"Precisa-se de um professor de língua javanesa. Cartas, etc." Ora, disse cá comigo, está ali uma colocação que não terá muitos concorrentes; se eu capiscasse quatro palavras, ia apresentar-me. Saí do café e andei pelas ruas, sempre a imaginar-me professor de javanês, ganhando dinheiro, andando de bonde e sem encontros desagradáveis com os "cadáveres". Insensivelmente dirigi-me à Biblioteca Nacional. Não sabia bem que livro iria pedir; mas, entrei, entreguei o chapéu ao porteiro, recebi a senha e subi. Na escada, acudiu-me pedir a Grande Encyclopédie, letra J, a fim de consultar o artigo relativo a Java e a língua javanesa. Dito e feito. Fiquei sabendo, ao fim de alguns minutos, que Java era uma grande ilha do arquipélago de Sonda, colônia holandesa, e o javanês, língua aglutinante do grupo maleo-polinésico, possuía uma literatura digna de nota e escrita em caracteres derivados do velho alfabeto hindu.
A Encyclopédie dava-me indicação de trabalhos sobre a tal língua malaia e não tive dúvidas em consultar um deles. Copiei o alfabeto, a sua pronunciação figurada e saí. Andei pelas ruas, perambulando e mastigando letras. Na minha cabeça dançavam hieróglifos; de quando em quando consultava as minhas notas; entrava nos jardins e escrevia estes calungas na areia para guardá-los bem na memória e habituar a mão a escrevê-los.
À noite, quando pude entrar em casa sem ser visto, para evitar indiscretas perguntas do encarregado, ainda continuei no quarto a engolir o meu "a-b-c" malaio, e, com tanto afinco levei o propósito que, de manhã, o sabia perfeitamente.
Convenci-me que aquela era a língua mais fácil do mundo e saí; mas não tão cedo que não me encontrasse com o encarregado dos aluguéis dos cômodos:
— Senhor Castelo, quando salda a sua conta?
Respondi-lhe então eu, com a mais encantadora esperança:
— Breve... Espere um pouco... Tenha paciência... Vou ser nomeado professor de javanês, e...
Por aí o homem interrompeu-me:
— Que diabo vem a ser isso, Senhor Castelo?
Gostei da diversão e ataquei o patriotismo do homem:
— É uma língua que se fala lá pelas bandas do Timor. Sabe onde é?
Oh! alma ingênua! O homem esqueceu-se da minha dívida e disse-me com aquele falar forte dos portugueses:
— Eu cá por mim, não sei bem; mas ouvi dizer que são umas terras que temos lá para os lados de Macau. E o senhor sabe isso, Senhor Castelo?
Animado com esta saída feliz que me deu o javanês, voltei a procurar o anúncio. Lá estava ele. Resolvi animosamente propor-me ao professorado do idioma oceânico. Redigi a resposta, passei pelo Jornal e lá deixei a carta. Em seguida, voltei à biblioteca e continuei os meus estudos de javanês. Não fiz grandes progressos nesse dia, não sei se por julgar o alfabeto javanês o único saber necessário a um professor de língua malaia ou se por ter me empenhado mais na bibliografia e história literária do idioma que ia ensinar.
Ao cabo de dois dias, recebia eu uma carta para ir falar ao doutor Manuel Feliciano Soares Albernaz, Barão de Jacuecanga, à Rua Conde de Bonfim, não me recordo bem que numero. E preciso não te esqueceres que entrementes continuei estudando o meu malaio, isto é, o tal javanês. Além do alfabeto, fiquei sabendo o nome de alguns autores, também perguntar e responder "como está o senhor?" - e duas ou três regras de gramática, lastrado todo esse saber com vinte palavras do léxico.
Não imaginas as grandes dificuldades com que lutei, para arranjar os quatrocentos réis da viagem! É mais fácil - podes ficar certo - aprender o javanês... Fui a pé. Cheguei suadíssimo; e, Com maternal carinho, as anosas mangueiras, que se perfilavam em alameda diante da casa do titular, me receberam, me acolheram e me reconfortaram. Em toda a minha vida, foi o único momento em que cheguei a sentir a simpatia da natureza...
Era uma casa enorme que parecia estar deserta; estava mal tratada, mas não sei porque me veio pensar que nesse mau tratamento havia mais desleixo e cansaço de viver que mesmo pobreza. Devia haver anos que não era pintada. As paredes descascavam e os beirais do telhado, daquelas telhas vidradas de outros tempos, estavam desguarnecidos aqui e ali, como dentaduras decadentes ou mal cuidadas.
Olhei um pouco o jardim e vi a pujança vingativa com que a tiririca e o carrapicho tinham expulsado os tinhorões e as begônias. Os crótons continuavam, porém, a viver com a sua folhagem de cores mortiças. Bati. Custaram-me a abrir. Veio, por fim, um antigo preto africano, cujas barbas e cabelo de algodão davam à sua fisionomia uma aguda impressão de velhice, doçura e sofrimento.
Na sala, havia uma galeria de retratos: arrogantes senhores de barba em colar se perfilavam enquadrados em imensas molduras douradas, e doces perfis de senhoras, em bandós, com grandes leques, pareciam querer subir aos ares, enfunadas pelos redondos vestidos à balão; mas, daquelas velhas coisas, sobre as quais a poeira punha mais antiguidade e respeito, a que gostei mais de ver foi um belo jarrão de porcelana da China ou da Índia, como se diz. Aquela pureza da louça, a sua fragilidade, a ingenuidade do desenho e aquele seu fosco brilho de luar, diziam-me a mim que aquele objeto tinha sido feito por mãos de criança, a sonhar, para encanto dos olhos fatigados dos velhos desiludidos...
Esperei um instante o dono da casa. Tardou um pouco. Um tanto trôpego, com o lenço de alcobaça na mão, tomando veneravelmente o simonte de antanho, foi cheio de respeito que o vi chegar. Tive vontade de ir-me embora. Mesmo se não fosse ele o discípulo, era sempre um crime mistificar aquele ancião, cuja velhice trazia à tona do meu pensamento alguma coisa de augusto, de sagrado. Hesitei, mas fiquei.
— Eu sou, avancei, o professor de javanês, que o senhor disse precisar.
— Sente-se, respondeu-me o velho. O senhor é daqui, do Rio?
— Não, sou de Canavieiras.
— Como? fez ele. Fale um pouco alto, que sou surdo, - Sou de Canavieiras, na Bahia, insisti eu. - Onde fez os seus estudos?
— Em São Salvador.
— Em onde aprendeu o javanês? indagou ele, com aquela teimosia peculiar aos velhos.
Não contava com essa pergunta, mas imediatamente arquitetei uma mentira. Contei-lhe que meu pai era javanês. Tripulante de um navio mercante, viera ter à Bahia, estabelecera-se nas proximidades de Canavieiras como pescador, casara, prosperara e fora com ele que aprendi javanês.
— E ele acreditou? E o físico? perguntou meu amigo, que até então me ouvira calado.
— Não sou, objetei, lá muito diferente de um javanês. Estes meus cabelos corridos, duros e grossos e a minha pele basané podem dar-me muito bem o aspecto de um mestiço de malaio...Tu sabes bem que, entre nós, há de tudo: índios, malaios, taitianos, malgaches, guanches, até godos. É uma comparsaria de raças e tipos de fazer inveja ao mundo inteiro.
— Bem, fez o meu amigo, continua.
— O velho, emendei eu, ouviu-me atentamente, considerou demoradamente o meu físico, pareceu que me julgava de fato filho de malaio e perguntou-me com doçura:
— Então está disposto a ensinar-me javanês?
— A resposta saiu-me sem querer: - Pois não.
— O senhor há de ficar admirado, aduziu o Barão de Jacuecanga, que eu, nesta idade, ainda queira aprender qualquer coisa, mas...
— Não tenho que admirar. Têm-se visto exemplos e exemplos muito fecundos...? .
— O que eu quero, meu caro senhor....
— Castelo, adiantei eu.
— O que eu quero, meu caro Senhor Castelo, é cumprir um juramento de família. Não sei se o senhor sabe que eu sou neto do Conselheiro Albernaz, aquele que acompanhou Pedro I, quando abdicou. Voltando de Londres, trouxe para aqui um livro em língua esquisita, a que tinha grande estimação. Fora um hindu ou siamês que lho dera, em Londres, em agradecimento a não sei que serviço prestado por meu avô. Ao morrer meu avô, chamou meu pai e lhe disse: "Filho, tenho este livro aqui, escrito em javanês. Disse-me quem mo deu que ele evita desgraças e traz felicidades para quem o tem. Eu não sei nada ao certo. Em todo o caso, guarda-o; mas, se queres que o fado que me deitou o sábio oriental se cumpra, faze com que teu filho o entenda, para que sempre a nossa raça seja feliz." Meu pai, continuou o velho barão, não acreditou muito na história; contudo, guardou o livro. Às portas da morte, ele mo deu e disse-me o que prometera ao pai. Em começo, pouco caso fiz da história do livro. Deitei-o a um canto e fabriquei minha vida. Cheguei até a esquecer-me dele; mas, de uns tempos a esta parte, tenho passado por tanto desgosto, tantas desgraças têm caído sobre a minha velhice que me lembrei do talismã da família. Tenho que o ler, que o compreender, se não quero que os meus últimos dias anunciem o desastre da minha posteridade; e, para entendê-lo, é claro, que preciso entender o javanês. Eis aí.
Calou-se e notei que os olhos do velho se tinham orvalhado. Enxugou discretamente os olhos e perguntou-me se queria ver o tal livro. Respondi-lhe que sim. Chamou o criado, deu-lhe as instruções e explicou-me que perdera todos os filhos, sobrinhos, só lhe restando uma filha casada, cuja prole, porém, estava reduzida a um filho, débil de corpo e de saúde frágil e oscilante.
Veio o livro. Era um velho calhamaço, um in-quarto antigo, encadernado em couro, impresso em grandes letras, em um papel amarelado e grosso. Faltava a folha do rosto e por isso não se podia ler a data da impressão. Tinha ainda umas páginas de prefácio, escritas em inglês, onde li que se tratava das histórias do príncipe Kulanga, escritor javanês de muito mérito.
Logo informei disso o velho barão que, não percebendo que eu tinha chegado aí pelo inglês, ficou tendo em alta consideração o meu saber malaio. Estive ainda folheando o cartapácio, à laia de quem sabe magistralmente aquela espécie de vasconço, até que afinal contratamos as condições de preço e de hora, comprometendo-me a fazer com que ele lesse o tal alfarrábio antes de um ano.
Dentro em pouco, dava a minha primeira lição, mas o velho não foi tão diligente quanto eu. Não conseguia aprender a distinguir e a escrever nem sequer quatro letras. Enfim, com metade do alfabeto levamos um mês e o Senhor Barão de Jacuecanga não ficou lá muito senhor da matéria: aprendia e desaprendia.
A filha e o genro (penso que até aí nada sabiam da história do livro) vieram a ter notícias do estudo do velho; não se incomodaram. Acharam graça e julgaram a coisa boa para distraí-lo.
Mas com o que tu vais ficar assombrado, meu caro Castro, é com a admiração que o genro ficou tendo pelo professor de javanês. Que coisa Única! Ele não se cansava de repetir: "É um assombro! Tão moço! Se eu soubesse isso, ah! onde estava!"
O marido de Dona Maria da Glória (assim se chamava a filha do barão), era desembargador, homem relacionado e poderoso; mas não se pejava em mostrar diante de todo o mundo a sua admiração pelo meu javanês. Por outro lado, o barão estava contentíssimo. Ao fim de dois meses, desistira da aprendizagem e pedira-me que lhe traduzisse, um dia sim outro não, um trecho do livro encantado. Bastava entendê-lo, disse-me ele; nada se opunha que outrem o traduzisse e ele ouvisse. Assim evitava a fadiga do estudo e cumpria o encargo.
Sabes bem que até hoje nada sei de javanês, mas compus umas histórias bem tolas e impingi-as ao velhote como sendo do crônicon. Como ele ouvia aquelas bobagens!...
Ficava extático, como se estivesse a ouvir palavras de um anjo. E eu crescia aos seus olhos!
Fez-me morar em sua casa, enchia-me de presentes, aumentava-me o ordenado. Passava, enfim, uma vida regalada.
Contribuiu muito para isso o fato de vir ele a receber uma herança de um seu parente esquecido que vivia em Portugal. O bom velho atribuiu a cousa ao meu javanês; e eu estive quase a crê-lo também.
Fui perdendo os remorsos; mas, em todo o caso, sempre tive medo que me aparecesse pela frente alguém que soubesse o tal patuá malaio. E esse meu temor foi grande, quando o doce barão me mandou com uma carta ao Visconde de Caruru, para que me fizesse entrar na diplomacia. Fiz-lhe todas as objeções: a minha fealdade, a falta de elegância, o meu aspecto tagalo. - "Qual! retrucava ele. Vá, menino; você sabe javanês!" Fui. Mandou-me o visconde para a Secretaria dos Estrangeiros com diversas recomendações. Foi um sucesso.
O diretor chamou os chefes de secção: "Vejam só, um homem que sabe javanês - que portento!"
Os chefes de secção levaram-me aos oficiais e amanuenses e houve um destes que me olhou mais com ódio do que com inveja ou admiração. E todos diziam: "Então sabe javanês? É difícil? Não há quem o saiba aqui!"
O tal amanuense, que me olhou com ódio, acudiu então: "É verdade, mas eu sei canaque. O senhor sabe?" Disse-lhe que não e fui à presença do ministro.
A alta autoridade levantou-se, pôs as mãos às cadeiras, concertou o pince-nez no nariz e perguntou: "Então, sabe javanês?" Respondi-lhe que sim; e, à sua pergunta onde o tinha aprendido, contei-lhe a história do tal pai javanês. "Bem, disse-me o ministro, o senhor não deve ir para a diplomacia; o seu físico não se presta... O bom seria um consulado na Ásia ou Oceania. Por ora, não há vaga, mas vou fazer uma reforma e o senhor entrará. De hoje em diante, porém, fica adido ao meu ministério e quero que, para o ano, parta para Bâle, onde vai representar o Brasil no Congresso de Lingüística. Estude, leia o Hovelacque, o Max Müller, e outros!"
Imagina tu que eu até aí nada sabia de javanês, mas estava empregado e iria representar o Brasil em um congresso de sábios.
O velho barão veio a morrer, passou o livro ao genro para que o fizesse chegar ao neto, quando tivesse a idade conveniente e fez-me uma deixa no testamento.
Pus-me com afã no estudo das línguas maleo-polinésicas; mas não havia meio!
Bem jantado, bem vestido, bem dormido, não tinha energia necessária para fazer entrar na cachola aquelas coisas esquisitas. Comprei livros, assinei revistas: Revue Anthropologique et Linguistique, Proceedings of the English-Oceanic Association, Archivo Glottologico Italiano, o diabo, mas nada! E a minha fama crescia. Na rua, os informados apontavam-me, dizendo aos outros: "Lá vai o sujeito que sabe javanês." Nas livrarias, os gramáticos consultavam-me sobre a colocação dos pronomes no tal jargão das ilhas de Sonda. Recebia cartas dos eruditos do interior, os jornais citavam o meu saber e recusei aceitar uma turma de alunos sequiosos de entenderem o tal javanês. A convite da redação, escrevi, no Jornal do Comércio um artigo de quatro colunas sobre a literatura javanesa antiga e moderna...
— Como, se tu nada sabias? interrompeu-me o atento Castro.
— Muito simplesmente: primeiramente, descrevi a ilha de Java, com o auxílio de dicionários e umas poucas de geografias, e depois citei a mais não poder.
— E nunca duvidaram? perguntou-me ainda o meu amigo.
— Nunca. Isto é, uma vez quase fico perdido. A polícia prendeu um sujeito, um marujo, um tipo bronzeado que só falava uma língua esquisita. Chamaram diversos intérpretes, ninguém o entendia. Fui também chamado, com todos os respeitos que a minha sabedoria merecia, naturalmente. Demorei-me em ir, mas fui afinal. O homem já estava solto, graças à intervenção do cônsul holandês, a quem ele se fez compreender com meia dúzia de palavras holandesas. E o tal marujo era javanês - uf!
Chegou, enfim, a época do congresso, e lá fui para a Europa. Que delícia! Assisti à inauguração e às sessões preparatórias. Inscreveram-me na secção do tupi-guarani e eu abalei para Paris. Antes, porém, fiz publicar no Mensageiro de Bâle o meu retrato, notas biográficas e bibliográficas. Quando voltei, o presidente pediu-me desculpas por me ter dado aquela secção; não conhecia os meus trabalhos e julgara que, por ser eu americano brasileiro, me estava naturalmente indicada a secção do tupi- guarani. Aceitei as explicações e até hoje ainda não pude escrever as minhas obras sobre o javanês, para lhe mandar, conforme prometi.
Acabado o congresso, fiz publicar extratos do artigo do Mensageiro de Bâle, em Berlim, em Turim e Paris, onde os leitores de minhas obras me ofereceram um banquete, presidido pelo Senador Gorot. Custou-me toda essa brincadeira, inclusive o banquete que me foi oferecido, cerca de dez mil francos, quase toda a herança do crédulo e bom Barão de Jacuecanga.
Não perdi meu tempo nem meu dinheiro. Passei a ser uma glória nacional e, ao saltar no cais Pharoux, recebi uma ovação de todas as classes sociais e o presidente da república, dias depois, convidava-me para almoçar em sua companhia.
Dentro de seis meses fui despachado cônsul em Havana, onde estive seis anos e para onde voltarei, a fim de aperfeiçoar os meus estudos das línguas da Malaia, Melanésia e Polinésia.
— É fantástico, observou Castro, agarrando o copo de cerveja.
— Olha: se não fosse estar contente, sabes que ia ser?
— Que?
— Bacteriologista eminente. Vamos?
— Vamos.


Livro de Contos de Lima Barreto:

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