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sexta-feira, 16 de novembro de 2012

A chinela turca - um conto de Machado de Assis


A chinela turca - parte 1

Vede o bacharel Duarte. Acaba de compor o mais teso e correto laço de gravata que
apareceu naquele ano de 1850, e anunciam-lhe a visita do major Lopo Alves. Notai que é
de noite, e passa de nove horas. Duarte estremeceu, e tinha duas razões para isso. A
primeira era ser o major, em qualquer ocasião, um dos mais enfadonhos sujeitos do tempo.
A segunda é que ele preparava-se justamente para ir ver, em um baile, os mais finos cabelos
loiros e os mais pensativos olhos azuis que este nosso clima, tão avaro deles, produzira.
Datava de uma semana aquele namoro. Seu coração deixando-se prender entre duas valsas,
confiou aos olhos, que eram castanhos, uma declaração em regra, que eles pontualmente
transmitiram à moça, dez minutos antes da ceia, recebendo favorável resposta logo depois
do chocolate. Três dias depois, estava a caminho a primeira carta, e pelo jeito que levavam
as coisas não era de admirar que, antes do fim do ano, estivessem ambos a caminho da
igreja. Nestas circunstâncias, a chegada de Lopo Alves era uma verdadeira calamidade.
Velho amigo da família, companheiro de seu finado pai no exército, tinha jus o major a
todos os respeitos. Impossível despedi-lo ou tratá-lo com frieza. Havia felizmente uma
circunstância atenuante; o major era aparentado com Cecília, a moça dos olhos azuis; em
caso de necessidade, era um voto seguro.
Duarte enfiou um chambre e dirigiu-se para a sala, onde Lopo Alves, com um rolo debaixo
do braço e os olhos fitos no ar, parecia totalmente alheio à chegada do bacharel.
- Que bom vento o trouxe a Catumbi a semelhante hora? perguntou Duarte, dando à voz
uma expressão de prazer, aconselhada não menos pelo interesse que pelo bom-tom.
- Não sei se o vento que me trouxe é bom ou mau, respondeu o major sorrindo por baixo do
espesso bigode grisalho; sei que foi um vento rijo. Vai sair?
- Vou ao Rio Comprido.
- Já sei; vai à casa da viúva Meneses. Minha mulher e as pequenas já lá devem estar: eu irei
mais tarde, se puder. Creio que é cedo, não?
Lopo Alves tirou o relógio e viu que eram nove horas e meia. Passou a mão pelo bigode,
levantou-se, deu alguns passos na sala, tornou a sentar-se e disse:
- Dou-lhe uma notícia, que certamente não espera. Saiba que fiz... fiz um drama.
- Um drama! exclamou o bacharel.
- Que quer? Desde criança padeci destes achaques literários. O serviço militar não foi
remédio que me curasse, foi um paliativo. A doença regressou com a força dos primeiros
tempos. Já agora não há mais remédio senão deixá-la, e ir simplesmente ajudando a
natureza.
Duarte recordou-se de que efetivamente o major falava noutro tempo de alguns discursos
inaugurais, duas ou três nênias e boa soma de artigos que escrevera acerca das campanhas
do Rio da Prata. Havia porém muitos anos que Lopo Alves deixara em paz os generais
platinos e os defuntos; nada fazia supor que a moléstia volvesse, sobretudo caracterizada
por um drama. Esta circunstância explicá-la-ia o bacharel, se soubesse que Lopo Alves
algumas semanas antes, assistira à representação de uma peça do gênero ultra-romântico,
obra que lhe agradou muito e lhe sugeriu a idéia de afrontar as luzes do tablado. Não entrou
o major nestas minuciosidades necessárias, e o bacharel ficou sem conhecer o motivo da
explosão dramática do militar. Nem o soube, nem curou disso. Encareceu muito as
faculdades mentais do major, manifestou calorosamente a ambição que nutria de o ver sair
triunfante naquela estréia, prometeu que o recomendaria a alguns amigos que tinha no
Correio Mercantil, e só estacou e empalideceu quando viu o major, trêmulo de bemaventurança,
abrir o rolo que trazia consigo.
(continuação 2)

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