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sexta-feira, 16 de novembro de 2012

A Igreja do Diabo - Um conto de Machado de Assis - Capítulo I


Um ótimo conto de Machado de Assis.


CAPÍTULO I - DE UMA IDÉIA MIRÍFICA

Conta um velho manuscrito beneditino que o Diabo, em  certo dia, teve a idéia
de fundar uma igreja. Embora  os seus  lucros fossem contínuos e grandes,
sentia-se humilhado com o papel avulso que exercia desde séculos, sem
organização, sem regras, sem cânones, sem ritual, sem nada. Vivia, por assim dizer,
dos remanescentes divinos, dos descuidos e obséquios humanos. Nada fixo, nada
regular. Por que não teria ele a sua igreja? Uma igreja do Diabo era o meio eficaz de
combater as outras religiões, e destruí-las de uma vez.
   — Vá, pois, uma igreja, concluiu ele. Escritura contra Escritura, breviário
contra breviário. Terei a minha missa, com vinho e pão à farta, as minhas prédicas,
bulas, novenas e todo o demais aparelho eclesiástico. O meu credo será o núcleo
universal dos espíritos, a minha igreja uma tenda de Abraão. E depois, enquanto as
outras religiões se combatem e se dividem, a minha igreja será única; não acharei
diante de mim, nem Maomé, nem Lutero. Há muitos modos de afirmar; há só um de
negar tudo.

Dizendo isto, o Diabo sacudiu a cabeça e estendeu os braços, com um gesto
magnífico e varonil. Em seguida, lembrou-se de ir ter com Deus para comunicar-lhe
a idéia, e desafiá-lo; levantou os olhos.
Acesos de ódio, ásperos  de vingança, e disse consigo:
—  Vamos, é tempo. E rápido, batendo as asas, com tal estrondo que abalou
todas as províncias do abismo, arrancou da sombra  para o infinito azul.

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